Embora o nome Pulgatório seja uma brincadeira entre as palavras Pulga, animal abundante no antigo local em que havia uma república com este nome, e Purgatório, para onde vão as nossas almas antes do Juízo Final, a casa já foi palco de milagres. Pelo menos no entendimento de alguns de seus moradores. Como nada acontece nessa casa enquanto seus narradores estejam totalmente sóbrios, um desconto interpretativo é sempre bem razoável.
Estavam Tocha e Miolo dormindo no quarto do telefone, bem junto à entrada da casa, quando tão discretamente como um rinoceronte em loja de cristais chega à república Patolino, com um garrafão de vidro cheio de pinga. Patolino, totalmente bêbado, quase chegando ao seu flash point, cuidava de seu valioso garrafão como se fosse a mais valiosa das preciosidades. Junto dele chegaram também um exala da Necrotério e o Xerox, morador daquela república, os dois também em estado de embriaguês full. Tinham a pretensão de “continuar bebendo até ficarem bêbados”, como se possível fosse, dando continuidade à sessão-CAEM na sala da Pulga. Embora acordados e ainda que tentados pela preciosidade trazida pelo Patolino, Tocha e Miolo, conscientes dos riscos de sua condição de bichos, fingiram-se de mortos para evitar que para eles sobrassem as tarefas típicas de um bicho: comprar cigarros, pão, Engov, limpar banheiro, lavar copos ou qualquer outra inutilidade que passasse pela cabeça dos veteranos. De repente, o quase silêncio foi quebrado por ruídos que pareciam provenientes de uma escaramuça próxima à porta que liga a Pulgatório à Nau. Um som que parecia o de uma porta sendo aberta violentamente e um grito de dor:
- Ai minha perna!
- Parece que é com o Patolino...
E, para socorrerem o amigo, Tocha e Miolo saíram de seu estado de sono oportunístico. Levantaram-se e foram direto para o local em que supunham estaria ocorrendo o problema. De uma lado o Xerox segurava o ex-aluno da Necrotério, do outro o Princesinha, morador da Nau, agarrava um ex-aluno dessa república. Os dois tinham resolvido tirar suas diferenças de tempo de estudante na sala da Pulga. Coisa sem muita importância que o tempo talvez já tivesse até sepultado, mas que a cachaça trouxe à tona naquela oportunidade. E, no meio do ringue, Patolino, que tentara separar os litigantes, reclamava da perna dolorida sobre a qual caíram os marrentos.
Súbito, a dor passou a ser de somenos importância. Como que saindo de um período de letargia, semblante taciturno e face raivosa, Patolino esquece o Lino e assume a sua porção Patola. Encara os briguentos e dispara seu furor incontido:
- Suas bichas, onde está o meu garrafão de pinga? Vocês aprontaram tudo isto para sumirem com a minha preciosa!
Com os olhos fuzilando raiva e desprezo na direção dos lutadores de sala de república, a boca começando a espumar e as narinas se abrindo para absorver a maior quantidade possível de oxigênio, tipificando um comportamento quase animal, Patolino assume cada vez mais sua porção Patola. E, quando já estava prestes a partir para cima dos lutadores que naquele instante já tinham até esquecido porque brigavam, conteve-se pela entrada em cena do Magoo, que surgiu na ponta da escada, vindo do andar da boate, com o garrafão na mão.
- Alguém perdeu um garrafão?
Todos estouraram em uma só gargalhada. A face carrancuda do Patolino se tornou leve, os olhos voltaram a brilhar, as narinas recuaram ao seu tamanho normal e, qual criança quando ganha o seu primeiro cãozinho, agarrou-se ao seu tesouro que passou a beijar e acariciar sofregamente, enquanto exclamava:
- Milagre, milagre!!!
A conclusão geral foi a de que um daqueles santos que sempre olharam pelos bicudos (Santa Joana D’Arc, que morreu de fogo; São Cristovão, que viveu n’água; ou São Sebastião, que morreu num pau só) havia cuidado do precioso líquido que nada tinha a ver com a escaramuça geral. O garrafão, abandonado em um canto rolara suavemente pela escada, como que fugindo da área de risco, sendo amparado em cada degrau por um dos santos, zeloso de sua responsabilidade. Consideraram aquele como sendo o primeiro milagre digno de registro na Pulgatório e sob o pretexto de sua comemoração sorveram todo o líquido como se água benta fosse.
Caiafa, com colaboração do Tocha
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