Era uma data qualquer, sem maiores pretensões. Estavam todos festejando e bebendo na sala em um estado que para a maioria das esposas, namoradas e familiares, seria denominado como deplorável. É, no entanto, nessas circunstâncias que o nosso subconsciente, não encontrando as amarras sociais que o limita, sobrepõe-se ao consciente e libera o tigre, o veado e o cordeirinho – cada qual de acordo com as suas tendências - que trazemos dentro de nós. É o Hulk que entra rasgando no lugar em que antes havia uma pessoa aparentemente normal. Alguns menos acostumados a este processo de transformação denominaram este fenômeno de “Síndrome da Pulgatório”.
Assim como o Véio Guaxo e o Jorge, o saudoso Risadinha não escapava à regra. Aliás, confirmava-a a cada vez que aparecia na República. De início era o mais cortês dos cavalheiros, com direito a mesuras e elogios a todos os quantos dele se aproximassem. Com o esvaziar dos copos e o transitar por assuntos e casos diversos, dos quais era o fiel depositário, o suor começava a escorrer-lhe pela testa, a risada ficava mais larga, mais solta, tornava-se mais eloquente, suas mesuras e elogios ficavam mais libertinos e, quando se pensava que havia atingido o seu limite, surpresa, virava um verdadeiro pepino...
Naquele dia, após inúmeros copos de cerveja sem uma única ida ao banheiro, virou um tigre de dentes de sabre num rompante e fez um chamamento à ação coletiva:
- Vamos mijar na Nau! Vamos mijar na Nau!!!
Largou o copo já vazio na beirada da pia e, bufando, subiu correndo as escadas em direção ao andar da Cooperativa. Patolino, a cujo nome de batismo fazia jus, demorou a sintonizar o brado retumbante do nosso tigre ao que iria acontecer. Só quando a ficha caiu, desviando-se de todos os neurônios mortos que encontrava pelo caminho, é que, olhando para o Tocha, se mostrou preocupado com o que imaginava ser provável:
- Mas ele vai mijar da janela do meu quarto!
Subiram correndo para impedir o ato insano, mas ao chegarem ao quarto do Patolino, já era tarde. Risadinha, com as calças arriadas e um sorriso de satisfação que ocupava a metade da cara, de pé sobre uma cadeira, despejava uma abundante cachoeira dourada. A tigrada já estava em curso. Estupefato ante o grotesco da cena, porém um pouco mais ligado do que antes, Patolino, lívido e sentindo-se impotente para lidar com os fatos, num berro quase gutural, pediu socorro ao Tocha:
- Olha bem o que o Risada tá fazendo!
Aí é que o Tocha percebeu o que transtornara o Patolino. O Risada, no afã de consumar seu ato de tigrismo, orgulhoso de sua idéia e com o sua percepção embotada pelo álcool, não levantara a janela antes da sessão mictória. E enquanto dava andamento à sua sessão golden shower, se vangloriava e dava risadas nervosas, virando a sua metralhadora para todos os lados.
Quando se deu conta da cagada que fazia, o quarto do Patolino já estava alagado e rescendendo a banheiro público. Janela, paredes, chão, cadeira, mesa, tudo o quanto havia naquele quarto, ficara impregnado pelo cheiro de cerveja estragada. Parou, balançou o que ainda restava e olhando para Tocha e Patolino, consciente do engano que cometera, tentou se redimir:
- Pô, fudeu! Não tenho mais xixi para batizar a Nau. Vamos descer, beber e encher a bexiga de novo...
A preocupação do Risada não era com o que fizera, mas sim com o que não conseguira fazer. Desceu da cadeira e rumou célere à sala, onde todos esperavam o desfecho da empreitada. Não disse uma só palavra a respeito da sua frustração em não ter obtido o resultado esperado. Voltou às cervejas e aos casos de antanho. A desolação do Patolino só ficou mais abrandada quando a bicharada fez a faxina do quarto. O Risadinha, depois de muitas outras cervejas e a bexiga cheia, preferiu ir ao banheiro.
Caiafa, com colaboração do Tocha
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