Aconteceu em pleno carnaval no final dos anos 80, ou talvez começo dos anos 90. A república estava com a lotação esgotada. Estavam na casa alunos, alguns exalas, alguns visitantes e muitas meninas. Meninas e meninas, algumas lindas, outras nem tanto. Até hoje os pulgatorianos não se deram conta da necessidade de solicitar cópia do RG e uma foto recente para elaborar o crachá das pessoas que irão se hospedar na casa durante o carnaval. É certo que como documento não vale nada, mas pela foto é possível viabilizar um processo de triagem que habilite a função “temos vaga” ou “estamos lotados, desculpe”.
Lugar para dormir não era problema, principalmente para o Risadinha que já era um veterano e tinha prerrogativas inúmeras, até porque só ia para cama após o último causo, o último copo e o último cigarro. Mas naquela noite foi diferente. Foi fumando seus cigarros, tomando suas cervejas e contando os seus causos, ora a um, ora a outro. Aos poucos a sua freqüência foi sendo alterada, até que lhe sobrou uma princesinha. Bem, digamos um dragãozinho a quem a bebida tinha dado ares de majestade. Rompendo um longo período de abstinência do Risadinha, foram se enrolar na boate.
Quatro da matina, seguramente bêbados, ao som da Marcha Triunfal valentemente instrumentada pela bandinha da república, demos início ao toque de alvorada. Quarto a quarto fomos avisando aos que dormiam que já havíamos chegado e que agora já poderiam curtir seus merecidos sonhos. Quando a fanfarra chegou à boate e executou algo parecido com a Abertura 1812, fazendo troar seus canhões, Risadinha levantou-se, praguejou alguma coisa ininteligível e atirou uma garrafa em nossa direção. O projétil sibilou próximo à minha cabeça e foi de encontro à parede: Ploft!
Ploft??? Mas não deveria ser CRASSsplimplimplim? Havia algo de muito estranho nisto. Acendemos as luzes da boate e fomos verificar. Risadinha, já meio refeito da manguaça, foi junto. Encontramos a garrafa incrustada em um vão entre as pedras da parede. Incrível, mas lá estava ela a desafiar a lei das probabilidades impossíveis. Refeitos do susto e o Risadinha já sóbrio de vez, cada um foi para o seu quarto dormir, largando o dragãozinho na boate.
No dia seguinte, isto é, algumas horas depois, comentávamos o fato, ou melhor, um contava e o outro corroborava, até que um outro republicano mais sóbrio definiu de vez a questão:
- Existem certas coisas, que mesmo a gente sabendo que são verdadeiras, é melhor não contar.
Assim é este livro, onde muitos causos, mesmo sabidamente verdadeiros e sobejamente conhecidos por alguns, foram deixados de fora a bem da ordem pública, social e, principalmente, familiar.
Caiafa
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