Nunca ouviu falar do Sdruphs? Não se espante. Pouquíssimos ouviram e menos ainda tiveram a oportunidade de jogar. A partida desta história aconteceu em uma festa do Doze na primeira metade dos anos 90, provavelmente na comemoração dos 20 ou 25 anos da república.
Antes de chegarmos a esta histórica partida, precisamos falar do jogo de King, muito popular na república desde a sua fundação até o final dos anos 80, quando pouco a pouco foi deixando de ser jogado. É jogado por quatro pessoas e consiste de duas partes, uma com seis rodadas diferentes entre si onde se perde pontos e outra de quatro rodadas com leilão onde se ganha pontos. Não entendeu? Pelo menos deve ter entendido o motivo porque é raro encontrar pessoas que jogam King. Exige muita atenção, concentração e memória. Para os ex-alunos mais antigos e amantes do King, as manhãs de sábado e domingo do Doze sempre são uma oportunidade para jogar uma partida, algumas vezes a única do ano. A mesa é montada na sala e os “doutores” começam a jogar, sempre servidos pelos ‘bichos”, que não deixam os copos de cerveja esvaziarem. Invariavelmente tem alguém na festa que gosta de jogar baralho e fica curioso com o jogo que nunca viu ou escutou falar. Isto proporciona um prazer extra aos jogadores, que falam: “senta aí e presta atenção que é fácil”. Imaginem a cena: começa uma rodada da parte negativa e quando o sujeito acha que entendeu, começa a seguinte que é completamente diferente!
Voltando à nossa história, naquela manhã de sábado foi montada uma mesa de King composta pelo Caiafa, José Otaviano, Fininho e o Boi Manso. Logo apareceu um curioso e disse que era muito bom de baralho e queria jogar, falando era só explicar que ele aprendia rápido. O cara que se achava o máximo no baralho, era tão arrogante que os jogadores não aplicaram o clássico “senta aí e presta atenção que é fácil”. Virou um desafio: “se você é bom, senta aí e veja se consegue aprender!”.
Iniciado o jogo, o cara “bom de baralho” prestava atenção, especulava, perguntava, em resumo: “enchia o saco”. A partida foi chegando ao fim e ele, todo cheio de si, falava: “O jogo é muito legal e não é difícil, já aprendi. É só ir me falando a seqüência que eu já estou pronto para jogar. Não disse que eu aprendia rápido?”.
Ninguém estava agüentando o cara e ele não parava de se elogiar. Aproveitando uma ida dele ao banheiro, o Caiafa sugeriu: “Vamos pregar uma peça no cara! Vamos falar que jogaremos uma partida de um jogo chamado Sdruphs”. Os quatro combinaram rapidamente como seria o jogo. Regra básica: o menos lógico possível, com criatividade e sem rir.
Quando o “bom de baralho” voltou, os quatro começaram a brincadeira:
- Vamos jogar uma partida de Sdruphs?
- Boa idéia.
- Poxa, não jogo este jogo há vários anos!
- Já bebi um pouco de cerveja, não sei se vou conseguir ter concentração para jogar uma partida de Sdruphs.
- Não podemos perder essa oportunidade, conseguir juntar quatro jogadores de Sdruphs é mais raro do que de King.
Nessa altura o cara já estava pra lá de curioso e doido para aprender mais um jogo.
- Como é que joga? Perguntou...
- É muito complicado. Foi a resposta...
- Vocês falaram que King era complicado e eu aprendi só olhando. Retrucou o “bom de baralho”
- Já está quase na hora do almoço dos ex-alunos. Não vai dar tempo para ficar explicando. Senta aí e observa. Alguém respondeu para não esticar a conversa.
A partida começou, e quem conhece os quatro jogadores, sabe o quão sério eles aparentam quando querem, principalmente quando é para pregar uma peça em alguém. O jogo foi se desenrolando e alguns que passavam pela sala vendo a concentração dos jogadores, pararam para ver perguntando:
- Que jogo é esse?
- É um tal de Sdruphs (alguém respondia quase cochichando). Só a turma antiga conhece.
E o “bom de baralho”, rodeava a mesa olhando a carta de um, de outro tentando achar alguma lógica. Nem é preciso dizer que a cada rodada ele ficava mais desorientado e perguntando sempre:
- Se a rodada anterior foi da em sentido horário, por que esta é em sentido horário?
- Já sei, quem joga figura ganha...
- Uai! O dois ganhou do rei, do ás e do nove na rodada anterior e agora perdeu para o seis... Qual a lógica?
- Por que ele ficou três rodadas sem descartar nenhuma carta e pegou todos os montes?
- Joguem um pouco mais devagar que eu não estou conseguindo entender.
- Por que ele descartou 4 cartas antes da vez dele e pegou uma do monte de cada um dos outros?
- Por que ninguém pegou as cartas da mesa nesta rodada?
A pequena platéia silenciosa, acompanhava atentamente, sem entender nada, mas com a sensação de estar presenciando algo raro, dado o semblante dos jogadores. O “bom de baralho” ficava cada vez mais desesperado e inconformado. Tinha se gabado tanto e não estava conseguindo entender nada. De repente, sem mais nem menos, o Caiafa se levantou e gritou:
- Sdruphs!!!
Pegou uma carta, rasgou ao meio e jogou uma metade em cima da mesa. Espanto geral na platéia. O “bom de baralho” ficou atônito, estático e com os olhos arregalados. Antes que ele conseguisse perceber que tinha acabado de levar um trote, Zé Otaviano, Boi Manso e Fininho também se levantaram cumprimentando o Caiafa pela vitória e saíram comentando:
- Bela jogada, Caiafa!
- Essa foi de mestre.
- No ano que vem quero revanche.
O “bom de baralho”, inconformado com a perda da oportunidade de sapear e dar palpite no jogo alheio, suplicou que fosse jogada mais uma mão, só mais umazinha, para que ele pudesse entender algumas sacadas do jogo que ainda não estavam claras. Foi quando um dos jogadores sentenciou:
- Bicho, o Sdruphs é um jogo tão complexo, tão desgastante, tão estressante que os especialistas recomendam que não se jogue mais de uma rodada por ano.
E o outro veterano emendou:
- Esperamos mais de cinco anos por esta rodada. Outra dessa, só na FESTA DOS 40 ANOS. E com a desculpa que iam para o almoço, saíram rapidamente, pois estava difícil conter as gargalhadas.
Fininho
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