Era o final do baile de formatura do Trubufu e, como de costume, os mais escolados nas artes da dança e da guerra postaram-se à porta da Pulga para um relatório final: tipo quem ficou com quem, quem se deu bem, quem quebrou a cara, quem ficou com a Carminha, etc – nada que não se possa passar sem. Além dos pulgatorianos legítimos, entre eles estando o próprio Trubufu e o Tocha, havia também um ou outro penetra de conversa alheia. Nesse dia o penetra era o Taiobinha, da Pif-Paf.
Seguia o relatório calmamente, com as notas de desempenho sendo atribuídas a cada um dos flagrados, quando desponta pela rua do Paraná, vindo da rua Direita, com o corpo ereto e o passo firme como um general em dia de desfile, o campeão da noite. Semblante risonho e olhos brilhantes como os do nosso general não eram mostras de nenhuma excepcionalidade. Mas cabelos cuidadosamente penteados, o terno impecável, o paletó abotoado e o nó da gravata de forma irrepreensível, era façanha considerada até então impossível para qualquer ser vivente que enfrentasse a batalha de um baile de formatura – general ou soldado raso. Não só impossível, mas inacreditável, quando se considerava que o personagem era o general Risadinha. Quem o conheceu, sabe do que se trata. O espanto maior não era por causa da sua pose, mas sim pelo acompanhamento a ela agregado, sob a forma de uma bela morena hospedada na república, à qual trazia delicadamente segurando pela mão. Desciam cuidadosamente para impedir que o salto do sapato da moça ficasse preso entre os paralelepípedos do calçamento. Foi um caso fulminante de amor à primeira vista, ainda que carregado de miopia, estrabismo, uma catarata de cerveja e outros desvios óticos mais. Conheceram-se na república e desencantaram na festa.
O belo casal para diante da banca avaliadora de desempenho do baile, sem saber que naquele instante já era o assunto e o Risadinha, dedo em riste, como era de seu feitio, começa a tecer rasgados elogios ao baile. Elogiou particularmente o Trubufu, que era um dos membros da comissão de formatura. Elogiou toda a comissão. Elogiou a banda que tocou durante o baile. Elogiou a organização da festa. E seguiu elogiando tudo o mais que se relacionasse ao evento. Até o tempo, que colaborara espantando a chuva anunciada, foi objeto de seus elogios. Quando todos imaginavam que as razões de elogio já haviam se esgotado, lá estava o Risadinha segurando a mão de sua presa, voltando a elogiar a festa, a organização da festa, a banda que tocou na festa...
A moça, muda, acompanhava com os olhos a desenvoltura e a diarréia laudatória de seu par, até que na terceira rodada de elogios, o Taiobinha não se conteve e arrepiou:
- Ô, Risada! É claro que o baile para você estava ótimo. Em quinze anos de Ouro Preto é a primeira vez que você se arruma em um baile de formatura!
A tigrada não perdoou e soltou uma gargalhada que invadiu toda a rua do Paraná e ecoou pelos quatro cantos de Ouro Preto. A menina, que até aquele momento achava que tinha abocanhado o maior troféu da Pulga, ficou sem graça, demonstrando todo seu desconforto de cobaia. Risada, perdendo a pose de gentleman que ostentara até então, não pensou duas vezes. Deixando brotar seu lado tigrão, despejou toda a sua fúria sobre o pobre Taiobinha. Escorraçou-o da porta da república em altos brados, maldizendo a ele, toda a sua prole e a todos os demais republicanos da Pif, passados, presentes e futuros.
Na medida em que Taiobinha sumia na curva da Necrotério, Risadinha voltava-se para o restante da Comissão Julgadora de Evento que ali ainda permanecia e dava continuidade à contundência do seu sermão. Mandou a bicharada fechar a matraca, meter o rabo entre as pernas e ir para a cama dormir. A moça, ainda boquiaberta, acompanhava pasma a toda aquela comédia. Acabou o baile, acabou a avaliação de desempenho, acabou o encanto e também acabou o tesão. Como duas abóboras desencantadas entraram em silêncio e foram dormir.
Caiafa, com colaboração do Tocha
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Você pode comentar à vontade, pode ser contra ou bater palmas - não vai fazer diferença alguma!