A Pulgatório é uma verdadeira irmandade. Além de moradores de uma mesma casa, acabávamos nos sentindo parte de um mesmo destino, pelo menos até o dia da formatura. Isto nos levava e ainda leva a um compartilhamento inusitado: herdamos os quartos, os móveis, os livros, as apostilas e até mesmo as colas de nossos antecessores. Obviamente que, depois dos quartos que abrigam histórias e segredos, as colas são as heranças mais cobiçadas. Se juntássemos todas as colas geradas e passadas de geração para geração, poderíamos mesmo montar um verdadeiro museu, biblioteca (ou coloteca, seria mais apropriado) ou mesmo uma feira, a Primeira Feira Nacional de Artifícios Usados em Provas Universitárias. É bem provável que hoje alguns de nossos engenhos sejam mais objeto de curiosidade arqueológica do que tecnológica, mas provaram sua utilidade a seu tempo.
As provas eram compostas de um kit que envolvia um papel almaço com o timbre da Escola de Minas impresso no topo, que servia para as respostas às questões; uma folha de papel almaço (será que as pessoas sabem o que é papel almaço?) comum, que servia para rascunho; e uma folha mimeografada (será que as pessoas sabem o que é isto?), rescendendo a álcool, que continha as questões. Naquela prova de física, os dois estudantes combinaram que o que sabia bem a matéria (saber muito bem significava nota cinco) sentar-se-ia à frente do outro que não sabia muito (não saber muito significava zero). O sabichão iria resolver suas questões no rascunho e no correr da prova trocariam suas folhas.
Passado algum tempo, o sabichão foi tocado de leve no ombro. De soslaio, vislumbrou a esperada folha de almaço que vinha para ser trocada pela sua, que ainda não estava completa. Tentou recusar, uma vez que o momento era impróprio, mas o outro insistiu, sem emitir um só ruído. Pegou a folha e guardou-a sob o tampo da carteira. Sentiu de novo o toque no ombro, como se a lhe cobrar o seu rascunho. Em um aceno bem discreto, pediu calma. Sentiu um toque mais brusco e não se conteve, voltou-se para o amigo para repreendê-lo por sua pressa. Deu de cara com o professor:
- O senhor quer fazer o favor de assinar e devolver a minha lista de presença que colocou sob a mesa?
Mas o que mais compartilhamos durante esses 40 anos de Pulgatório foram as mulheres, seja porque namoramos as irmãs de outros pulgatorianos (em alguns casos saíram até casamentos), seja porque herdamos as namoradas de outros republicanos (também saíram casamentos), sempre respeitando-se as regras do MGP – Movimento do Gosto Parecido, até mesmo antes que ele fosse institucionalizado. Com todo um arsenal de cumplicidade, os pulgatorianos sempre souberam se ajudar na manutenção sentimental da fraternidade. O acobertamento dos casos mais escabrosos, que poderiam gerar stress ou até mesmo divórcios, foram uma constante na vida republicana. Uma porta com um pequeno detalhe era apenas um aviso de que o quarto estava sendo utilizado temporariamente, isto é, para o mundo exterior, tinha viajado. Apenas um olhar era o suficiente para que um se levantasse e segurasse a moça na porta. Não precisavam palavras. As mulheres entravam em uma competição desleal contra um time que treinava todos os dias, jogava afinadíssimo e nunca perdia um clássico.
Até que um exala, bêbado como sempre, já na metade do segundo copo de cerveja, mais para Kid do que para Billy, confessou que descobrira que namorava a mesma mulher que outro exala. O outro exala, para quem a batalha é mais importante do que o sucesso, pouco se lixava para o fato. Ora a menina saía com um, ora com outro, jurando a cada um deles que era o único. No dia dos namorados comprou uma dúzia de cartões para seus amados com a inscrição “Para o meu único amor!”. O vendedor achou meio estranho, mas não discutiu com a cliente. Com muita maestria, provavelmente adquirida na Pulgatório, enganava a ambos e a alguns outros que se derretiam por ela. Quando a notícia da bigamia chegou à cozinha, repleta de alas e exalas, a chacota atingiu 9,5 pontos na escala Richter, fazendo tremer as bases machistas da república. O corno nº 1, bêbado, corroborado pelo corno nº 2, também presente no recinto explicou-se:
- Ela pensava que enganava nóis, mas era nóis que enganava ela...
Caiafa
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