terça-feira, 21 de abril de 2009

ZÉ OTAVIANO E MONICA

Conheciam-se superficialmente. Tornaram-se mais íntimos durante os ensaios de teatro. Namoraram e casaram. Zé Otaviano ainda morava na Pulgatório e cursava metalurgia. Mônica morava em Saramenha e havia pouco terminara o segundo grau. Oriunda de família tradicional, seu casamento com Zé não foi o que a sociedade ouropretana considerava o acontecimento do ano. Já, para nós da Pulgatório, foi a quintessência do bom.

Após casados, alugaram uma casinha na rua do Ouvidor para terem um cantinho onde pudessem dar abrigo às suas intimidades. Mas se esquecerem de combinar como seriam essas intimidades. Zé continuava o boêmio de sempre, sem hora para voltar para casa, como já era de costume enquanto morador da Pulga. Mônica, romântica, esperava ansiosamente pelo seu amado. Não gostava de ficar sozinha, nem mesmo em sua casa e, enquanto Zé não voltava, passava longas horas sentada nos degraus que davam direto na calçada. Às vezes triste, às vezes chorosa. Mas se amavam à sua maneira.

Após a formatura do Zé, mudaram-se para BH. Zé foi trabalhar como engenheiro na Magnesita e Mônica foi administrar uma transportadora que era de seu tio. Mas não conseguiram levar a vida de amor que gostariam de ter, eram ambos infelizes à sua maneira. Não tiveram filhos. Separaram-se. Casaram-se com outros que lhes prometeram a felicidade que desejavam desde cedo. Cada qual teve dois filhos do novo casamento. Zé aproveitou a vida e correu o mundo – bebeu de todas em todos os lugares. Mônica dedicou-se à literatura e tornou-se uma premiada autora de livros infantis.

Era um final de tarde de um Doze de Outubro nos anos noventa, fui matar a fome no bar do Roberto Peret. O bar do Peret, no início da rua São José, tinha algumas especificidades que não eram encontráveis – encontráveis é o neologismo resultante da mistura de encontradas e pensáveis - em nenhum outro lugar. A mais exótica delas era, sem dúvida, a televisão, que ficava junto ao caixa, para o uso exclusivo do dono do boteco. Os clientes não tinham direito a esse benefício. Saindo do bar, dei de frente com o Zé Otaviano, a quem não via há muito tempo. Cumprimentamo-nos efusivamente. Enquanto o abraçava, percebi um pouco adiante o rosto risonho da Mônica. Para mim era uma mera coincidência. Mas imediatamente fiquei sabendo que voltara a ser padrinho de casamento daquele casal, já que haviam resolvido desfazer seus casórios atuais e voltar a ser o casal de antigamente. E eu estava ali, sendo informado, em primeiríssima mão, dessa decisão.

Construíram uma casinha em Lavras Novas, onde pretendiam passar o restante de seus dias que esperavam que fossem muitos. Levaram juntos todos os filhos que não tiveram em comum. E passaram a curtir o amor que não conseguiram experimentar anos antes. Agora a sociedade ouropretana já os via com outros olhos, aprovando aquele recasamento. Mas, novamente, esqueceram-se de combinar os detalhes do convívio. Zé voltou à vida de boêmio, numa versão século XXI e novamente Mônica sentiu-se infeliz. Foi trabalhar na Escola de Minas, junto com o Marino Bó, e Zé mudouse para Portugal. Tornaram a optar pela separação.

Antes de seguirem seus novos caminhos, resolveram desfazer-se dos bens comuns e, entre outras coisas, colocaram à venda o apartamento que possuíam em Belo Horizonte. O corretor de imóveis encarregado da venda explicou ao interessado o porquê da venda, mas o comprador não deu muita atenção – era mais uma conversa de vendedor. Marcaram a data da passagem da escritura em um cartório. De um lado da mesa sentaram-se os vendedores, Zé Otaviano e Mônica, e do outro o comprador, Zé Maria Magnago que 35 anos atrás assistira ao casamento do Zé e naquele momento era testemunha do último (eu disse último?) capítulo dessa novela.

Caiafa

P.S.
Na Festa dos 40 anos consegui falar com o Zé Otaviano. Estava de volta ao Brasil e morava em Belo Horizonte. Com outra mulher.

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