terça-feira, 21 de abril de 2009

SENTIR-SE UM BICHO

O nosso primeiro Doze de Outubro, na Pulgatório, foi inesquecível. Não tínhamos a quem homenagear, não tínhamos exalas e nem dava para fazer um rachinha tipo aluno X exalas. Nenhum retratinho na parede, não havia a boate e as turistas não eram tantas que pudéssemos dividir democraticamente. Aliás, eram muito poucas e as olhávamos com olhares cobiçosos, algo como assim: “No dia em que eu for engenheiro, não escapará nenhuma!” Os tempos passaram, Dozes melhores aconteceram, até que nos tornamos engenheiros. Aí descobrimos que quem comia as turistas eram os bichos.

Nem sempre os bichos prevaleceram na guerra pulgatoriana. Mas sempre deram sorte, muita sorte. Mesmo em festas absolutamente assimétricas, como o carnaval, em que a república respeita religiosamente a proporção de um pulga para cada quatro garotas, o bicho acaba sempre se dando bem. Embora sobre para ele as tarefas mais estafantes e subalternas, como tomar conta do Billy the Kid, limpar banheiros e ajudar na portaria, sempre encontra um tempinho entre uma cerveja e outra para dar um tapa na peteca. Mesmo em situações mais bizarras, o bicho se dá bem. Não sabemos se por pena de quem assiste a sua jornada ou porque admira o seu vigor juvenil, o fato é que, se sobrar para alguém, é para o bicho. Mesmo nas situações mais adversas o bicho prepondera e mostra o seu DNA pulgatoriano.

Como acontece com todos os bichos, no seu primeiro carnaval pulgatoriano, Severino teve que desfilar no Gala Gay. Vestido a rigor, de saiote e soutien e maquiado burlescamente como boneca de programa, entrou para dar o seu recado na passarela da sacanagem. Rebolou, esfregou-se na coluna, revirou os olhinhos e deixou-se agarrar e arranhar pelas gatinhas que enchiam a boate. Uma, mais do que outras, avançou nas carícias mais íntimas e ainda murmurou-lhe ao ouvido:
- Quero mais, muito mais! Quero tudo depois da festa.

Severino, embora bicho, esgueirando-se da rígida tutela do Jack Xana, saiu rápido, tomou um longo banho removendo todo o cansaço, o suor e, principalmente, a maquiagem que o embonecava. Vestiu-se igual a homem, escovou os dentes, penteou os tufos de cabelos recortados artisticamente, passou um perfume másculo e seguiu confiante para a batalha final. Ao ver a garota que o assediara tão compulsivamente, abriu um sorriso e caminhou para o abraço. E moça deu dois passos atrás e repensou seu gosto:
- Sabe que você de boneca era mais interessante?

Mas nem tudo é tão ruim na vida de um bicho. Tanto é que no Doze de 2007 resolvemos homenagear o Marino, que seguramente foi o veterano que teve mais bichos na sua longa carreira pulgatoriana. A homenagem, ao contrário do que muitos pensavam, não era apenas pelos 35 anos de República, mas também pelos 34 anos aturando e ensinando aos bichos o caminho das pedras. E naquele ano tudo foi muito diferente. Como eram muitos a serem homenageados e tendo muitos exalas confirmado a presença, não havia mais espaço que comportasse a festa. A solução foi apelar para o aluguel do REMOP na realização do almoço e entrega das homenagens. Como todo almoço pulgatoriano, precedido de muita conversa e muita cerveja. Alguns mais bêbados e outros menos, devolviam suas cervejas diretamente ao mictório do REMOP quando Zé Cachaça resolveu colocar em operação sua metralhadora giratória, esparramando urina para todos os lados, molhando a uns e outros.

E segue a festa com os veteranos fantasiados de bichos, colocando uma tiarazinha em suas cabeças antes de entregarem a placa aos homenageados e fazerem seus discursos laudatórios. Até que chegou a vez do Sancho, quando lhe foi perguntado como se sentia sendo portador da homenagem a um exala bem mais novo:
- Sinto-me um verdadeiro bicho. Estou fantasiado de bicho, homenageando um cara bem mais novo do que eu, almoçando no REMOP e ainda levando mijada de exala!

Caiafa

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