terça-feira, 21 de abril de 2009

PÔQUER

A república tem suas fases. Mulheres, amigos e jogos mudam de acordo com o tempo e com os novos moradores. Durante meu tempo de república tivemos como passatempo: pôquer, caixeta, buraco, peteca, basquete, futebol, ping-pong, video-game (tivemos 3) e jogos de computador. Até o joguinho do aparelho da DirecTv chegou a ser febre durante um tempo.

Um dos jogos que sempre vem e vai é o pôquer. Sua sazonalidade deve-se a freqüente dificuldade de se encontrar 4 ou 5 moradores que saibam jogar e que estejam à toa e dispostos. Toda vez que chega um bixo, tentamos ensiná-lo, mas a maioria desiste do jogo por causa das perdas antes de aprender realmente como jogar. Normalmente as apostas eram de 5 centavos por rodada. Nada que afetasse a economia de cada um, mas dava valor ao jogo para que não ficasse avacalhado.

No meu começo da república tínhamos como jogadores certos Eu, Discoteca e Jorge. Vampeta, Pinoxê, PSDB, Previnido, Matraka e Xyko Naya costumavam completar a mesa. Alguns com mais e outros com menos assiduidade. Algumas vezes a mesa também tinha participação de algum ex-aluno ou amigo. O Jorge é quase um jogador compulsivo e o Discoteca é um pela-saco que costumava usar o poderio econômico pra intimidar. Vencer era sempre bom, mas era melhor ainda quando era contra eles. Tudo bem que nem sempre acontecia. Esse enfrentamento com ambos nos rendeu boas risadas. Às vezes ficávamos perplexos com as jogadas do outro. O blefe era a maneira mais divertida de ganhar e pegar um desses era a segunda melhor maneira. Os jogos aconteciam normalmente à noite. Para que pudéssemos ir à aula no dia seguinte e ninguém perdesse muito dinheiro, sempre tínhamos limite de tempo e de valor perdido. Tive uma mão com o Discoteca que nunca vou esquecer.

Jogávamos na cozinha e não lembro quem completava a mesa. Nessa mão eu consegui fazer dois pares, que é um jogo fraco. Em condições normais, ninguém apostaria com uma mão dessas. Porém, resolvi apostar pra tentar espantar os adversários com um blefe. Mas como de costume, o Discoteca pagou meu blefe e ainda aumentou a aposta. Nessa hora os outros dois da mesa só observavam pra ver quem era o maior ladrão. O Discoteca tinha desconfiado da minha aposta e por isso cobriu esperando que eu tremesse e fugisse. Mas era inadmissível perder por medo. Principalmente dele. Então resolvi pagar a aposta e aumentar mais. Apostei 3 cacifes pra afugentá-lo. Mas o Discoteca é teimoso e não aceitaria nunca tomar um blefe tão descarado. Por isso ele pagou os 3 e aumentou mais 5.

Nessa hora ele fez uso do poder financeiro que eu citei antes. E estava na cara que ambos estávamos blefando e apostando só pra ver o outro correr de medo pra poder tripudiar depois. O que seria um peido pra quem já estava cagado? Eu sabia que minhas chances de ganhar eram mínimas por estar com dois pares, mas resolvi pagar. O pote tinha mais de 8 reais, o que na época era uma fortuna e dava pra passar dois dias. Então era a mão da noite.

Abri minha mão já desanimado sabendo que perderia e provavelmente passaria alguns dias almoçando joãozinho, maria e disco voador (arroz, feijão e ovo frito). Mas isso era melhor do que ouvir o Discoteca pelando o saco me chamando de medroso. Mas a maior surpresa veio com a mão do Discoteca. Ele tinha apenas um par.

Quando eu vi eu quase não acreditei. Tinha ganhado mais de 9 reais com uma mão horrível. Meu almoço terrível tinha virado 2 hambúrgueres de janta. Mas nem assim o Discoteca desceu do pedestal. Teve coragem de me chamar de medíocre por ter apostado com uma mão tão ruim. Como se ele não tivesse feito igual.

Quando o cinema funcionava, reservávamos o domingo pra assistir filmes. Em um desses domingos já tínhamos marcado de ir ao cinema às 20h, mas às 19h resolvemos começar uma partida de pôquer deixando o filme de lado. Alguém sugeriu dobrar as apostas para 10 centavos e todos aceitaram. Essa atualização de valores acontecia bem de vez em quando sempre que alguém mais ganancioso estava na mesa. Normalmente era o Jorge ou HIV que faziam a proposta.

Jogo iniciado e a maré de azar do PSDB foi dando as caras. Ele só tomava pancada e ia comprando mais cacifes pra alimentar a mesa. Em menos de uma hora ele perdeu os 5 reais que tinha direito. Cada um da mesa ganhou um pouco. Como o jogo acabou cedo, a idéia de ir ao cinema voltou. Mas o PSDB disse choroso que não iria pois tinha perdido todo dinheiro que tinha. Bondosos que somos, fizemos uma vaquinha com dinheiro que havíamos acabado de ganhar dele no pôquer para pagar o seu ingresso.

Pitako

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