Os Estados Unidos da América, ao declararem a sua independência, deram início a uma política a que se denominou Destino Manifesto, isto é, não queriam ser apenas mais um país no mundo de então, queriam ser o melhor deles. Com a Pulgatório não foi diferente – nascemos com o propósito de sermos a melhor. Nascemos vocacionados para constituirmos uma nação à parte, com o inconveniente de termos vizinhos.
O Brasil era o nosso Estados Unidos, a Nau Sem Rumo era o nosso Paraguai e a Necrotério a nossa Argentina – todos hermanos. A Xavier da Veiga, em seus bons tempos, era a nossa Colômbia, onde dávamos vazão aos nossos vícios mais perversos. A Vila dos Tigres, com as suas inúmeras repúblicas, era a nossa Ásia, países diferentes, com hábitos exóticos, brigando entre si e não se entendendo com ninguém, mas com uma grande vantagem: ficavam bem distantes de nosso eixo de influência. O Cine Vila Rica era a nossa Disneyworld, isto é, a única diversão familiar a que poderíamos almejar. As outras não eram familiares... A Serigy era um Vaticano, ficava longe do mundo e achava que todos deveriam seguir as suas crenças. As inúmeras duas únicas repúblicas femininas, em sua totalidade, simbolizavam aquilo que uma delas trazia no nome: Convento. A Aquarius era quase uma África, um amontoado de tribos desgarradas e tendo que conviver no mesmo espaço. Neste concerto de nações republicanas, com uma concorrência tão fraca, não foi difícil à Pulgatório adquirir lugar de destaque; em pouco tempo já era a mais conhecida de Ouro Preto, sendo mesmo manchete de capa de jornais de turismo em São Paulo e citações elogiosas no New York Times.
Alguns anos depois da menção no NYT, em São Paulo, fui a um restaurante chamado Consulado Mineiro, na Praça Benedito Calixto, ponto de uma interessante feira de artesanato. Enquanto esperava para ser atendido, passava os olhos pelas fotografias amareladas emolduradas na parede, vistas bucólicas, típicas do interior mineiro. Nisto aproximou-se um senhor, que vim saber ser um dos donos e que tentou satisfazer a minha curiosidade. Falou de sua cidade e de seu povo e de como a sua família resolveu sair de Senador Firmino para enfrentar a selva de pedra paulistana. Falei de minhas origens pulgatorianas e demonstrei já ter ouvido falar de sua cidade, uma vez que tínhamos na República um morador originário de lá.
- Ah! Sei, o Paulo, é meu primo...
Alguns anos passados, em outro restaurante de comida típica mineira (adoro frango ao molho pardo), num daqueles domingos em que se acordou pelo lado do avesso, mal sentei à mesa fui assediado por um grupo de adolescentes do sexo feminino. Foram atraídas por uma camiseta em que se via uma pulga e a inscrição República Pulgatório. E logo começou o interrogatório:
- Você conhece a República Pulgatório? Acho bárbaro aquilo lá. Estive lá várias vezes e sempre me convidam quando tem festa.
- Já fui ao carnaval e agora pretendo ir à Festa do Doze. Não deu para ir ao Festival de Inverno. Conheço todo mundo lá, são quase que irmãos para mim. Tratam-me muito bem, adoro a boate e as festas.
- Os meninos são ótimos, super gente fina! Nunca bebi tanto e nunca me diverti tanto. E, no final do ano vou à formatura dos meninos. Também tenho uma camiseta da República, mas é diferente da sua.
E, vendo-me calado e mudo, diante de seu matraquear sem fim, uma delas lembrou-se do porquê estavam ali:
- Você conhece a República Pulgatório, não conhece?
A dor de cabeça e o mau humor ajudaram na resposta:
- Não, nunca fui lá, nem sei como é. Vida em república de estudante não faz parte do meu universo. Esta camiseta foi presente de um amigo meu. Uso em consideração a ele.
E fui almoçar sossegado, apesar dos olhares incrédulos dos demais componentes da mesa que faziam um imenso esforço para conterem o riso.
Caiafa
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